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Questões sobre psicoterapia, avaliação psicológica e o processo de mudança.
A psicoterapia trata-se de uma “cura através da fala”, isto é, não constituída por ações. O tratamento é feito pela palavra, usada por profissionais qualificados, por meio de uma relação específica, para reduzir o sofrimento de alguém que procura ajuda.
Dois fatores distinguem as relações psicoterapêuticas dos outros tipos de relação. Primeiro, a relação terapêutica é unilateral. O psicoterapeuta preocupa-se com o bem-estar do paciente mas não fomenta a preocupação do paciente pelo seu bem-estar, ou seja, o prazer e a satisfação que surgem na relação não são um critério para que o psicólogo a prolongue ou cesse, tal como acontece noutras relações. Segundo, os papéis e responsabilidades do psicoterapeuta são definidos pelo quadro terapêutico. Por exemplo, o psicoterapeuta vê o paciente apenas durante as sessões marcadas, não interrompe as sessões ou o processo e, salvo raras excepções, não discute assuntos não relacionados com o foro psicoterapêutico.
A relação psicoterapêutica actua tanto ao nível tanto das relações interpessoais como das relações intrapessoais, isto é, dos modelos de relação interiorizados e da relação do indivíduo consigo próprio. O tipo de relação estabelecida no contexto clínico permite uma aprendizagem através da experiência e a vinculação a um cuidador. Esta nova relação, pelas suas características particulares, constitui um dos principais agentes de mudança em psicoterapia.
As pessoas procuram a psicoterapia principalmente por três motivos:
- o alívio de sintomas em caso de sofrimento emocional ou o desejo de alterar padrões de comportamento;
- a passagem por crises pessoais;
- o desejo de aumentar a sua produtividade profissional ou de aprender a viver melhor com os outros.
Dependendo dos casos, os motivos podem ser – e são, com frequência – uma mistura dos três mencionados.
Não é necessário levar material específico para a primeira consulta. Algumas pessoas pensam antecipadamente no que gostariam de dizer, outras chegam sem saber por onde começar. Ambas as formas são igualmente possíveis.
O conteúdo do que cada pessoa escolhe contar, a forma como o conta e o que lhe ocorre são importantes para compreender a sua experiência e o modo como se relaciona com o que está a viver. Nesse sentido, todas as formas de começar são formas certas de começar.
O diagnóstico psicológico é realizado através da observação do funcionamento psíquico, recorrendo a uma ou mais entrevistas clínicas e, quando necessário, a instrumentos de avaliação. É realizado, com frequência, o “diagnóstico estrutural”, que identifica o modo de funcionamento dominante, permitindo ao psicólogo conduzir o processo e orientar a intervenção. Sintomas como ansiedade ou depressão podem surgir em pessoas com estruturas muito diferentes, estarem organizados de formas diferentes que implicam formas específicas de intervenção. Uma das vantagens do diagnóstico estrutural é precisamente permitir compreender o sintoma no contexto da organização psíquica em que ocorre e orientar a intervenção para os processos que estão na sua origem ou contribuem para a sua manutenção, em vez de se centrar somente na sua redução.
A estrutura clínica ou da personalidade corresponde ao funcionamento psíquico de cada pessoa. De forma geral, são consideradas três grandes estruturas e nove subestruturas. As três grandes estruturas são a neurótica, borderline e psicótica, que se distinguem sobretudo em quatro dimensões fundamentais: a natureza da angústia, os mecanismos de defesa e o modo de relação consigo próprio e com o outro.
A estrutura tende a formar-se na infância, através das interacções entre a criança, o seu meio ambiente e pessoas significativas. Este processo continua posteriormente a consolidar-se, adquirindo uma relativa estabilidade no final da adolescência e início da idade adulta.
A estrutura tem um carácter predominantemente inconsciente, mas pode ser identificada através da forma como as diferentes dimensões se organizam e reaparecem no funcionamento da pessoa, no seu discurso, no seu comportamento e nas relações que estabelece, nomeadamente através de padrões, repetições, recorrências e associações. Embora relativamente estável, a estrutura mantém possibilidades de transformação ao longo da vida.
De forma geral, as mudanças que ocorrem ao longo de uma psicoterapia podem ser compreendidas como o fortalecimento das funções do Eu, isto é, das capacidades psicológicas que permitem regular o mundo interno, integrar a experiência, pensar sobre si próprio, relacionar-se com os outros e orientar as próprias escolhas.
Regulação do mundo interno e das defesas – A psicoterapia aumenta a capacidade do Ego para a supervisão, monitorização e regulação do mundo interno do sujeito, através do apaziguamento da ansiedade que afecta o Eu. Além disso, ajuda a pessoa a implementar defesas mais adaptativas e oportunas para lidar com os conflitos do que aquelas de que dispõe quando inicia a psicoterapia.
Elaboração da experiência emocional – Uma maior capacidade para tolerar aquilo que sente permite ao paciente aproximar-se de aspectos da sua experiência emocional que não eram conscientes ou não tinha presentes. Assim, num ambiente seguro e com a ajuda do psicólogo, essas experiências podem ser gradualmente elaboradas, tornando-se mais toleráveis para o Eu e exigindo, por isso, menos operações defensivas.
Memória, discurso e capacidade de auto-observação – Durante a psicoterapia ocorre, igualmente, um aumento da capacidade de albergar memórias na parte consciente do Eu, na medida em que a fala do paciente nas sessões vai fazendo emergir memórias importantes que o paciente não tinha presentes. Desta forma, as memórias tornam-se mais acessíveis e o discurso menos inibido e mais fluente. Isto constitui, por si só, um benefício, mas contribui também para o desenvolvimento da capacidade de o paciente se observar a si próprio e de estabelecer relações entre diferentes aspectos da sua experiência.
Passado, automatismos e liberdade de escolha – À medida que experiências importantes são elaboradas, podem perder parte da intensidade com que condicionavam o funcionamento psicológico. O Ego fica, assim, mais livre para investir no presente e na realidade. Isto significa que os padrões mentais, a passividade e os comportamentos automáticos se tornam menos frequentes. Em vez de responder repetidamente às situações a partir de conflitos, experiências e modos de funcionamento anteriores, o paciente torna-se progressivamente mais capaz de compreender o que se passa consigo e de dirigir as suas próprias escolhas.
Necessidades e valores próprios – O paciente torna-se também mais afinado com as suas próprias necessidades e passa a ser-lhe mais fácil distinguir os seus valores dos valores dos outros, que anteriormente podia seguir como se fossem seus. Esta maior diferenciação permite-lhe reconhecer com maior clareza aquilo que pensa, sente, deseja e valoriza, em vez de orientar as suas escolhas predominantemente a partir de expectativas externas ou de valores que interiorizou sem os reconhecer como tal.
Impulsos, afectividade e capacidade de pensar – Ao mesmo tempo, os impulsos tornam-se mais bem regulados, porque o paciente dispõe de mais instrumentos para pensar e elaborar internamente aquilo que sente antes de agir. Passa também a existir um maior predomínio da afectividade sobre os impulsos agressivos, apoiado pela capacidade do Eu para neutralizar os impulsos. A possibilidade de pensar e dar significado à experiência amplia, assim, o espaço entre o impulso e a acção.
A mudança começa com o estabelecimento de uma relação de cariz muito particular. Este tipo de relação facilita gradualmente a partilha do mundo interno do paciente, tornando acessíveis à reflexão aspectos da experiência que permaneciam inconscientes, insuficientemente representados ou dependentes de operações defensivas.
O quadro teórico e a formação clínica do psicólogo permitem-lhe reconhecer mecanismos de defesa, angústias, conflitos internos, afectos, representações e padrões relacionais, bem como identificar bloqueios, resistências e movimentos de ambivalência que surgem ao longo do processo. As intervenções são realizadas em função do material que o paciente traz para as sessões e das associações que se vão estabelecendo, num processo de compreensão e elaboração da experiência e de fortalecimento progressivo das funções do Eu.
O desejo de auto-conhecimento é uma característica fundamental do ser-humano, sendo um motivo perfeitamente válido para fazer psicoterapia.
