
Compreender outra pessoa exige um movimento de descentramento, uma tentativa de suspender, tanto quanto possível, as nossas próprias referências para nos aproximarmos do modo como ela vive e interpreta o mundo. A sua história, os seus afectos, as relações que estabeleceu e os significados que atribui à experiência organizam de forma única aquilo que sente, pensa e faz. É neste movimento de aproximação ao outro que se situa a empatia.
A empatia pode assumir diferentes formas. Podemos procurar compreender a perspectiva de outra pessoa, reconhecer e ressoar com o seu estado emocional ou responder ao seu sofrimento. Estas dimensões complementam-se, mas não são equivalentes. É possível compreender intelectualmente a experiência do outro sem partilhar o seu estado emocional, tal como é possível sentir intensamente o sofrimento de alguém sem o compreender verdadeiramente.
A empatia implica, por isso, um equilíbrio entre a proximidade e a diferenciação. Exige disponibilidade para entrar em contacto com a experiência do outro, mas também capacidade de preservar a consciência de que essa experiência nunca é totalmente nossa. Quando esta diferenciação se perde, a empatia pode dar lugar à fusão emocional ou à projecção das nossas próprias ideias e sentimentos sobre o outro.
A capacidade de reconhecer e acolher estados mentais diferentes dos nossos começa a formar-se nas primeiras relações de cuidado e continua a transformar-se ao longo da vida. Desenvolve-se no contacto com outras formas de existir, através da curiosidade pelo que é estranho e da disponibilidade para admitir que uma mesma realidade pode adquirir sentidos diferentes para pessoas diferentes.
A proximidade empática é compatível com a discordância, o pensamento crítico e a preservação dos próprios limites. O que está em causa é o reconhecimento de que a experiência do outro possui uma organização e uma inteligibilidade próprias, mesmo quando não coincide com a nossa e permanece, em parte, inacessível.
Compreender alguém não consiste, portanto, em ocupar o seu lugar, mas em aproximarmo-nos suficientemente para reconhecer o mundo a partir do qual nos fala. É a manutenção da diferença no interior da proximidade que permite o encontro entre duas subjectividades.
Leituras recomendadas
Levinas, E. (1961). Totalidade e Infinito.
Rogers, C. R. (1957). The Necessary and Sufficient Conditions of Therapeutic Personality Change. Journal of Consulting Psychology.
Stein, E. (1917/1989). On the Problem of Empathy.
Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.
