Categoria: Ansiedade

  • Porque sofremos por antecipação?

    Conversas que ainda não aconteceram, um resultado de que estamos à espera de receber, a possibilidade de falhar ou de perder alguém são exemplos de que basta imaginar o que poderá acontecer para sentirmos uma inquietação muito real. O acontecimento pertence ao futuro, mas o sofrimento vive no presente.

    A capacidade de antecipar permite-nos reconhecer riscos, preparar respostas e cuidar daquilo que é importante para nós. Faz parte da nossa vida psíquica e ajuda-nos a orientar escolhas. Mas essa capacidade pode tornar-se penosa quando as possibilidades se apresentam sobretudo como ameaças e sentimos que precisamos de estar preparados para todas elas.

    Na ansiedade, o que poderá acontecer pode adquirir uma força semelhante à de algo que já está a acontecer. Os pensamentos regressam aos mesmos cenários, procuramos sinais de perigo e ensaiamos respostas para situações que talvez nunca se concretizem. A inquietação pode acompanhar-se de tensão corporal, dificuldade em descansar ou em concentrar-nos noutras coisas. Embora a ansiedade ocasional faça parte da experiência humana, a sua intensidade e persistência podem limitar a vida quotidiana.

    Nem sempre é evidente aquilo que se teme. Uma apresentação no trabalho pode envolver o receio de errar, mas também o de ficar exposto, desiludir alguém ou ser considerado incapaz. Uma mensagem sem resposta pode despertar dúvidas sobre a relação ou o medo de deixar de ser importante para o outro. Compreender a ansiedade implica, por isso, aproximarmo-nos dos significados que uma situação adquire para quem a vive.

    Numa perspectiva psicodinâmica, esses significados podem estar ligados à história da pessoa. Experiências de imprevisibilidade, crítica ou perda podem contribuir para uma expectativa de que algo correrá mal. Quem precisou de estar atento ao humor dos outros poderá continuar a procurar sinais de desaprovação, mesmo em relações onde existe maior segurança. O que hoje parece uma preocupação excessiva pode ter sido, noutro momento, uma forma de se proteger.

    Por vezes, preocuparmo-nos dá-nos a sensação de que estamos a fazer alguma coisa perante aquilo que não controlamos. Rever mentalmente todos os desfechos possíveis pode parecer uma maneira de evitar uma surpresa dolorosa. Nesses casos, abandonar a preocupação pode ser vivido como baixar a guarda: se deixarmos de pensar no perigo, quem nos garante que estaremos preparados?

    Esta tentativa de protecção pode, contudo, tornar-se desgastante. Nenhuma antecipação consegue assegurar que não haverá perdas, erros ou decepções. E a procura de certeza pode prolongar-se indefinidamente, porque cada resposta deixa aberta uma nova possibilidade de dúvida. Torna-se difícil reconhecer quando já fizemos o que estava ao nosso alcance e quando continuamos apenas a tentar eliminar a incerteza.

    O trabalho psicoterapêutico pode ajudar a compreender o que se teme, o que parece estar em causa e por que razão certas possibilidades se tornam tão difíceis de suportar. Também permite explorar os recursos de que a pessoa dispõe hoje — por vezes diferentes daqueles que tinha quando aprendeu a manter-se em alerta.

    Lidar com a ansiedade envolve poder distinguir um risco de uma possibilidade, reconhecer os limites do controlo e construir confiança na capacidade de responder ao que vier a acontecer. O futuro continuará a ser incerto. Mas poderá deixar de exigir que vivamos, antecipadamente, todos os seus desfechos dolorosos.