O inconsciente é o que nos move sem sabermos

Kandinski (1923), Composição VIII

A ideia de que conhecemos inteiramente as razões do que pensamos, sentimos e fazemos é contrariada por muitas experiências comuns. Lapsos de linguagem – quando nos “foge a boca para a verdade” -, sonhos recorrentes, reacções emocionais inesperadas, comportamentos que contrariam as nossas intenções ou padrões que se repetem nas nossas relações podem apontar para motivações e significados que não compreendemos.

O termo “inconsciente” designa o conjunto dos processos psíquicos que permanecem fora da consciência, mas continuam a influenciar os nossos pensamentos, sentimentos, comportamentos, escolhas e relações. É uma forma de pensamento que organiza e dá sentido à experiência sem que a própria pessoa se aperceba desse trabalho.

O pensamento inconsciente possui modos de organização diferentes daqueles que orientam o pensamento consciente. Condensa experiências distintas, desloca significados, estabelece associações inesperadas e aproxima momentos afastados no tempo. Num sonho, por exemplo, uma única pessoa pode reunir características de várias figuras importantes e diferentes personagens podem representar diferentes aspectos da própria pessoa. Lugares familiares podem surgir transformados noutros e uma preocupação actual pode ligar-se a uma experiência antiga.

Mas o inconsciente não se limita a associar e transformar conteúdos. Conserva, também, soluções psíquicas construídas ao longo da história da pessoa. Crenças sobre si mesmo, algumas formas de medo, traços de personalidade ou padrões de relação podem ter adquirido uma função de protecção ou adaptação, por corresponderem à melhor resposta que a pessoa conseguiu encontrar, num determinado momento da sua vida, com os recursos de que dispunha. Compreender essa organização permite reconhecer que aquilo que hoje nos faz sofrer ou parece inato tem, muitas vezes, uma história, uma função e um sentido.

A influência do inconsciente manifesta-se também na forma como vivemos e nos relacionamos com os outros. Pode existir uma distância entre aquilo que pensamos e a maneira como efectivamente agimos. É possível desejar intimidade e afastar repetidamente quem se aproxima; afirmar que determinada opinião deixou de ter importância e continuar a organizar a vida em função dela; querer abandonar um comportamento e voltar a ele. Nessas contradições, podemos reconhecer a presença de motivações que ainda não conseguimos compreender.

Quando algo inconsciente se torna consciente, abre-se a possibilidade de uma relação diferente com o que sentimos e fazemos. O que antes organizava silenciosamente a experiência pode ser observado, questionado e trabalhado. Ao explorar uma forma repetida de pensar, sentir ou agir, a pessoa vai reconhecendo as experiências, emoções, fantasias, crenças e padrões relacionais que contribuíram para a sua formação. Pode descobrir, por exemplo, que uma expectativa deixou de corresponder à realidade, que um receio pertence a uma experiência antiga ou que coexistem aspectos contraditórios. Essa compreensão, aprofundada e vivida na relação terapêutica, pode permitir uma reorganização do funcionamento psíquico: aquilo que antes se impunha como um automatismo perde parte da sua força, abrindo espaço a novas formas de pensar, sentir e viver.

A descoberta do inconsciente introduz a ideia profundamente transformadora de não sermos inteiramente senhores da nossa própria casa. Existe sempre algo em nós que nos escapa. E talvez a maior descoberta não seja apenas a do nosso desconhecimento, mas também a de que a nossa vida interior é infinitamente mais rica, complexa e criativa do que alguma vez imaginámos. O inconsciente lembra-nos de que nunca somos apenas aquilo que conseguimos pensar sobre nós. Somos sempre maiores do que imaginamos, e é precisamente nessa descoberta que reside a possibilidade de continuarmos a descobrir-nos, a criar novos sentidos e a transformar a nossa forma de viver.

Leituras recomendadas

Freud, S. (1915). O Inconsciente. In Metapsicologia.
Lacan, J. (1966). Escritos.
Ricoeur, P. (1965). Freud and Philosophy: An Essay on Interpretation.
Žižek, S. (2006). How to Read Lacan.